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Olhar

por MC, em 12.06.15

A primeira vez que ouviu a pergunta, a criança ficou embatucada. Estavam na saleta ao lado do claustro, onde todas as tardes a Irmã Adelaide supervisionava aquilo a que bondosamente intitulava “os lavores”. Os deditos desastrados lá iam empurrando agulhas rombas por entre os furinhos das cartolinas coloridas, quando, num repente, a Irmã lançou a polémica: ‘então e o que é que os meninos vão querer ser, quando crescerem?’

A criança não sabia que era suposto ‘ser-se’ alguma coisa. Envergonhou-se silenciosamente pela sua ignorância quando percebeu que muitos dos meninos não só tinham uma opinião abalizada sobre o assunto, como se apressaram a aventar mais do que uma possibilidade. Sentiu-se encharcar numa chuva de polícias, médicos, hospedeiras, astronautas, bombeiros - tantas, tantas coisas que os meninos queriam ser!

A criança, aturdida pela surpresa, quedou-se invisível, colada à cadeira, a matutar nas possibilidades. “Tu não dizes nada?”, perguntou-lhe a amiga Anabela num sussurro soprado por entre os caracóis desordenados. Fez que não com a cabeça, num gesto quase imperceptível. “Diz uma coisa qualquer”, desembaraçou a Anabela, com um sorriso encorajador. A partir desse dia, mais ninguém pilhou a criança desprevenida no que àquele assunto dizia respeito. Tinha sempre uma ou duas respostas engatilhadas que faziam feliz o mais auspicioso dos adultos.

Mas o que nunca conseguiu perguntar a ninguém, porque conhecia a zombaria bem-intencionada com que os adultos respondiam às tontices das crianças, era por que razão tinha de ‘ser’ alguma coisa. Porque não podia somente observar, do alto do seu banco, à janela de guilhotina, o formigar rotineiro das pessoas na rua, o metabolismo colorido da vizinhança, a alternância das estações. Porque não era função valorosa ficar apenas à soleira da velha casa de pedra, onde ao serão a avó Maria eternizava histórias do seu passado. Porque não podia apenas quedar-se na cozinha grande da tia Cila, onde as vozes baixas das mulheres se misturavam com o aroma dos temperos beirãos e o vapor da canja de galinha velha lhe ensopava a alma com um conforto indestrutível.

A sua infância morreu um bocadinho no dia em que compreendeu, embora nunca o tenha perguntado, que apenas ‘ver’ nunca seria tarefa de reconhecido mérito.

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publicado às 00:34



Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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